Search: Ericka (2009) é a história de uma vida contada pela internet. São 35 pinturas a óleo que registram o cotidiano de uma pessoa comum, desconhecida, desde seu nascimento até os eventos mais recentes, através de informações coletadas a partir da busca pelo nome de Ericka no Google.

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Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

Search: Ericka • 2009 • 35 pinturas a óleo • 30 x 40 cm (cada) • Coleção MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo

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Invasão de privacidade – por Juliana Monachesi

A primeira atitude (impulsiva) de pessoa-século-21-imersa-na-cultura-digital que tomo antes de iniciar o texto sobre a obra “Search: Ericka” (2009) do artista Felipe Cama é colocar no Google o nome “Ericka Ehrhorn” para saber se essa personagem de fato existe ou se é pura invenção do artista. A segunda atitude (reflexiva) de alguém-vivendo-na-era-digital que tomo é duvidar de todas as informações rastreadas pelo Google. Ericka Ehrhorn é tão real na internet 2.0 quanto na série de 35 pinturas a óleo feitas pelo artista para contar a história de sua personagem e dispostas sobre uma bancada que faz lembrar um museu de história natural do futuro.

Este tem sido o assunto do trabalho de Felipe Cama desde 2003, quando apresentou “Uma e três fotos (after Kosuth)”, da série “Pixel”, na 35ª edição da mostra anual da Faap, em São Paulo. Trazendo o conceitualismo da abstração total para o contexto da virtualidade da digitalização total, o artista inaugurou em sua obra (e, concomitantemente a outros artistas, inaugurou no discurso da arte brasileira recente) uma arqueologia dos tempos digitais: trabalhou com a idéia de pixelização de imagens virtuais, com a idéia de uma nova desmaterialização via decodificação de imagens reais, e deixou o âmbito da investigação estética e política da circulação de imagens para entrar no campo da investigação estética e política dos limites entre público e privado na sociedade de controle com a obra que apresenta atualmente em exposição individual na galeria Leme.

A história de Ericka retraçada por esta espécie de nova arqueologia que, em vez de escavações em profundidade, investiga o terreno horizontal da rede resulta tão “superficial” quanto a própria internet, ou seja, superficial em sua complexidade. Infância, adolescência, escolas, endereços, atividades esportivas, faculdade, empregos, opiniões políticas, casamento, gravidez, maternidade, interesses culturais: Ericka é uma pessoa como outra qualquer e continuaria no anonimato para o resto do mundo (leia-se “para aqueles que não integram seu círculo de amigos e conhecidos”) não fosse o voyeurismo artístico – para não dizer perseguição – empreendido pelo artista durante dois anos e meio (e jamais fazendo uso de artimanhas de invasão de privacidade como cadastramento em sites que fornecem dados pessoais ou em redes sociais).

Perseguição pode soar um tanto forte, mas a palavra tende a perder a conotação psicopática assim que mais e mais adeptos do Twitter levarem para a “vida real” os códigos da sociabilidade digital (no Twitter ninguém é “amigo” de ninguém; as pessoas “seguem” ou “são seguidas” na plataforma de microblogging  –e “follow” significa também “perseguir”–, uma forma de escancarar de vez o propósito dos blogs pessoais e das redes sociais). Desta investigação e de um incansável cruzamento de dados para descartar “informações erradas”, nasce uma narrativa que mistura elementos documentais e ficcionais e que recompõe diante dos olhos do visitante uma cronologia factível de uma vida igualmente verossímil, mas não está no horizonte do artista narrar uma história particular de vida e sim descortinar uma vida geral (e genérica) da existência histórica do presente. Se o século 20 foi a era dos calhamaços biográficos para grandes massas, o século 21 se anuncia como a era das microbiografias para nanoaudiências.

Por ter se desenvolvido ao longo de dois anos e meio, o projeto termina por testemunhar também a história da internet, do boom de sites de busca ao advento da web 2.0: a primeira “tela” desta outra arqueologia é a entrada do nome Ericka Ehrhorn no Google, e a última é um print screen da página pessoal da protagonista da obra na rede social Facebook, passando por uma comunidade de ex-alunos da Punahou School (Ericka supostamente vive no Havaí), a pequena nota do jornal Star Bulletin sobre seu casamento, e detalhes geográficos da ilha onde mora com o marido, Dan Sailer, obtidos no Google Earth. “A gente tem uma tendência a editar nossas memórias pessoais de acordo com o que interessa, já esta história é toda contada pela voz de outras pessoas e termina com a única intervenção que parte da própria protagonista e que serve de abertura para a sua história real”, explica o artista.

Publicado originalmente no catálogo da exposição “Search: Ericka”, 2009