Clique aqui para ver “gostosa01.txt” – por Juliana Monachesi

Os sites de conteúdo erótico são top de acesso segundo qualquer pesquisa sobre o comportamento de internautas mundo afora. De acordo com dados da empresa norte-americana de pesquisas na internet Hitwise, publicados pela Folha de S.Paulo em junho de 2004, enquanto 18,8% dos norte-americanos que acessaram a internet no período pesquisado visitaram sites que veiculam pornografia, 5,5% dos internautas entraram nos principais sites de busca no mesmo intervalo.

Outra dimensão da ciberpornografia, esta impossível de quantificar, é a circulação de imagens eróticas via e-mail. Existe uma cultura do troca-troca de baixarias que alimenta parte substancial da caixa de mensagens dos usuários de internet em qualquer parte do globo. Foi focando este aspecto da cultura de rede que o artista Felipe Cama desenvolveu uma série de trabalhos sobre as relações atuais entre sujeito e informação, sobre os agenciamentos do mundo contemporâneo com o universo da imagem.

Comecemos por Uma e três fotos (After Kosuth), de 2003, a obra que deu origem à série, por assim dizer. Apresentado na 35ª Anual da Faap, o trabalho mostra uma fotografia de uma mulher seminua em uma pose insinuante, a mesma imagem sobreposta por seu código binário simplificado (obtido por meio de sua redução ao menor tamanho possível), e um calhamaço de papel A4 contendo a codificação em linguagem binária da fotografia exposta.

A referência é One and three chairs (1965), de Joseph Kosuth, emblema da arte conceitual que se constitui de uma cadeira, uma fotografia da cadeira e uma ampliação fotográfica da definição que o dicionário oferece do vocábulo. Arte como discurso. Se, com Kosuth, entendemos que arte é texto, em uma primeira confrontação com a obra de Felipe Cama, percebemos que o meio digital agrega novos textos ao repertório da arte.

A tríade objeto-representação-linguagem, que se explicitava na acareação entre as três cadeiras de Kosuth, fica menos explícita quando se tomam as três fotos do trabalho de Felipe Cama. Uma vez que podem ser vistas em sua materialidade e sua virtualidade, as três fotos são objetos, são representações e são linguagem, concomitantemente. Na exposição de Cama na galeria Leme, em São Paulo, Uma e três fotos (After Kosuth) funciona como preâmbulo para a produção atual do artista.

Seguem-se os Nus da série Pixel, apropriações de fotos eróticas que circulam pela internet na forma de spam retrabalhadas com a utilização de softwares que calculam a média entre pixels de uma determinada área da imagem, Rumo à abstração, de 2004, em que uma mesma imagem pode ser vista em quatro diferentes momentos deste cálculo, os nus da história da arte, inscritos na mesma lógica, e os Nus binários (2005), que estão entre seus trabalhos mais recentes.

Antes de tratar das obras expostas, que merecem uma análise detida, falemos da contribuição de Cama para uma crítica da cultura de rede. Valendo-se de uma rotina da internet -no universo empresarial e corporativo é muito comum a circulação ad nauseum de fotos pornográficas em baixíssima definição (para acelerar o trânsito e acentuar a descartabilidade das imagens)– o artista pôs a nu as relações entre o homem e seus dispositivos de visão.

Felipe Cama joga com os códigos da fotografia digital. Se a fotografia analógica podia ser considerada, segundo Roland Barthes (1), como “uma emanação do referente”, a imagem digital extingue esta utopia de transparência. Sendo ela manipulada ou não, apenas por conter a possibilidade de manipulação (que, por sinal, já estava contida também no âmbito da foto analógica, fato que só fica evidente a partir do advento da imagem digital).

Não existe manipulação nas fotografias de Cama no sentido de alteração/adulteração da imagem “original”. Seus mosaicos quase abstratos concentram as mesmas informações contidas nos pixels “originais”. O procedimento fica mais claro quando se toma uma outra trabalho do artista, que não está na mostra da galeria Leme. A série O que te seduz? mostra produtos falsificados, como um tênis Nike, uma caneta Mont Blanc e uma bolsa Louis Vuitton, fotografados com tal apuro técnico que parecem autênticos.

O que o artista parece querer provar é que a imagem fotográfica não é, em si, real ou enganosa, que ela só pode ser determinada por sua pretensão à imediação (2) ou pelo desejo do observador por uma tal imediação. Discutindo a fotografia digital em sua obra Remediation, Bolter e Grusin escrevem: “Uma fotografia que se apresenta para ser vista sem ironia expressa o desejo pela imediação, enquanto que uma fotografia que chama a atenção para seu estatuto fotográfico torna-se uma representação deste desejo”.

É o desejo de transparência que está em questão: para quem quer ver o Nike, a Mont Blanc ou a bolsa Louis Vuitton legítimos, a noção de um mundo mediado pela publicidade e pela venda de imagens falsas não se coloca. Assim como quem troca pornografia cotidianamente na rede talvez não atente para a diferenciação entre “uma emanação do referente” e um punhado de dados na forma de pixels em sua tela. Uma fotografia que chama a atenção para seu estatuto de mediação, como as imagens da série Pixel de Cama, constitui uma representação ou crítica à este desejo de transparência.

Com esta série, o artista logra ainda representar implicações da enxurrada de informação com que se lida hoje e da exacerbação de nossa pulsão escópica com o advento da internet. O obsceno das fotografias torna-se metáfora da obscenidade da invasão da intimidade por todo e qualquer spam e pop-up indesejado, por mecanismos de espionagem on-line, que monitoram nossos interesses e desejos escancarando-os ao voyerismo alheio, aos órgãos do governo e aos departamentos de marketing. No afã de tudo ver, o usuário de internet acaba sendo muito mais visto do que gostaria de pensar que o é.

O artista conta que experimentou “devolver” a intervenção para a rede uma única vez: re-inseriu no circuito de ciberpornografia as mesmas fotos que havia recebido, mas transformadas em arquivos de Word, em que se lia a seqüência de seus códigos binários. O que devem ter pensado os destinatários do spam? Teriam se dado conta de que, diante daquele arquivo de texto, estavam visualizando exatamente a mesma informação contida nos arquivos de imagem de mesmo nome (“gostosa01″, “gostosa02″ etc.)?

Uma visita à exposição de Felipe Cama na galeria Leme deixa claro que, apesar de a inspiração vir da cultura digital, o diálogo do artista é mesmo com a história da arte. Depois de trabalhar sobre as imagens apropriadas à rede, Cama passou a utilizar nus de artistas como Van Gogh (como na obra ao lado), Gauguin, Picasso e Courbet para aplicar-lhes a mesma lógica, propondo um interessante paralelo entre arte e pornografia, no que têm de parecido quando o assunto é o desejo de transparência.

Notas:
1 – Em A Câmara Clara (1980), traduzido pela editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1984.
2 – Tradução do termo inglês “immediacy”, algo como “mediação imediata”, em oposição a “hypermediacy” (hipermediação), conforme teorizado por Jay David Bolter e Richard Grusin em Remediation – Understanding New Media. MIT Press, Cambridge, 1999.

Publicado originalmente no site Canal Contemporâneo em 23 de junho de 2005.

 

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